E um telefone bege que toca e me deixa nervosa.
Números.
Números por todos os lados.
Todos começam por trinta e seis.
E me confundem.
Lá só existe sol do lado de fora.
Na parede do outro lado da rua.
E quando dão seis horas a sombra do prédio toma conta da parede.
Lá ainda existe trote.
O telefone toca e não há nada.
Só para me manter tremendo.
As pessoas levam seus filhos.
E não se pode entrar de bermuda e blusa cavada.
Lá se você é índio pode entrar pelado
E andar por todos os lados.
E eu não posso falar nada
Nem ficar envergonhada.
Lá eles chupam picolé.
Todo o tempo. Todo mundo.
Lá só um engenheiro é bonito.
E há milhares de caixas de remédios...
Para os índios.
Lá todo mundo sorri e me dá vontade de chorar.
Lá, lá trampo segunda-feira.
E não posso viajar.
Lá o guarda não gosta de mim.
E eu tenho que deixar assim.
Lá as portas são sujas.
E lá há escuridão.
Lá todo mundo pede socorro
E eu só quero que a sombra do prédio tome conta da parede.
Analú Maria (minha borboletinha)
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