segunda-feira, 28 de maio de 2007

CADEIRAS QUEBRADAS

Lá existe uma cadeira quebrada.

E um telefone bege que toca e me deixa nervosa.

Números.

Números por todos os lados.

Todos começam por trinta e seis.

E me confundem.

Lá só existe sol do lado de fora.

Na parede do outro lado da rua.

E quando dão seis horas a sombra do prédio toma conta da parede.

Lá ainda existe trote.

O telefone toca e não há nada.

Só para me manter tremendo.

As pessoas levam seus filhos.

E não se pode entrar de bermuda e blusa cavada.

Lá se você é índio pode entrar pelado

E andar por todos os lados.

E eu não posso falar nada

Nem ficar envergonhada.

Lá eles chupam picolé.

Todo o tempo. Todo mundo.

Lá só um engenheiro é bonito.

E há milhares de caixas de remédios...

Para os índios.

Lá todo mundo sorri e me dá vontade de chorar.

Lá, lá trampo segunda-feira.

E não posso viajar.

Lá o guarda não gosta de mim.

E eu tenho que deixar assim.

Lá as portas são sujas.

E lá há escuridão.

Lá todo mundo pede socorro

E eu só quero que a sombra do prédio tome conta da parede.

Analú Maria (minha borboletinha)

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