segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Agricultura orgânica: um novo movimento brota do solo

Depois de mais de 20 dias de estiagem tinha chovido aquela noite. A manhã emanava um cheiro peculiar de terra saciando a sede. Ele não mora muito longe do centro da cidade, em menos de 15 minutos é possível chegar a sua propriedade rural. Quando a equipe do JORNAL DO OESTE aproximou-se da cerca da chácara, aquele homem de estatura mediana, voz grave e um olhar de convicção já estava a nossa espera. Era Edenei Queiroz, pequeno agricultor de Toledo que optou por um modelo ambientalmente saudável de trabalhar, interagir com o próximo e viver com a consciência tranquila. 
Queiroz vive com a mulher e a filha na propriedade de 58 mil m2 onde o dia passa ao som da sinfonia dos passarinhos. Trabalham juntos com a ajuda de mais dois funcionários na olericultura. Plantam um pouco de tudo, tomate, alface, cenoura, rúcula, beterraba, numa área de 15 mil m2. Optaram pela agricultura orgânica inspirados na história de um parente próximo, que começou a ter problemas de saúde devido à utilização de produtos tóxicos e de adubos químicos na agricultura. Esse é um problema real e que se repete. Muitos dos agricultores que seguem essa nova linha de trabalho passaram pelo mesmo desafio.
A intoxicação não escolhe a vítima e é silenciosa. A maioria só descobre quando está doente. Os venenos se acumulam no organismo e é quando se adoece e procuram-se respostas que o grande vilão aparece. E não são apenas os agricultores que são atingidos. É necessário que as pessoas reflitam sobre os tipos de alimentos que estão ingerindo. Doenças como o diabetes, hipertensão arterial e problemas estomacais podem ter origem na alimentação, é o que afirma a secretária de Saúde de Toledo, Denise Liell. “Antes de consumir qualquer alimento é preciso conhecer a origem do produto. Também podemos pensar nos orgânicos como forma de tratamento às doenças”, defende.
E os orgânicos podem ir além: temperos e chás estão neste universo. Tem-se um exemplo disso em Toledo, em uma parceria da Prefeitura com a Itaipu Binacional, voltada para a fitoterapia. “Procuramos incentivar o cultivo de plantas medicinais e condimentares nos domicílios e a introdução desses produtos nas Unidades Básicas de Saúde. É necessário introduzir cada vez mais a prática de orgânicos, aumentando o consumo e a produção, mudando a realidade existente”, completa.

ALÉM DA PROPRIEDADE – Assim, Queiroz resolveu mudar. Alguns mais reacionários até podem dizer que radicalizou. Na verdade, ele optou por seguir na contra-mão do sistema conhecido. Reagiu. Sinalizou positivamente para uma alimentação mais saudável para ele, para sua família, para quem consome seus produtos e, principalmente, para o meio ambiente.
O presidente do Instituto Maytenus, instituição do terceiro setor, Jair Pelegrin, comunga da postura de Queiroz. Para ele a agricultura orgânica não anda sozinha, pois o produtor faz ações integradas e não planta simplesmente por modismo. “Ao se adequar a este sistema ele protege a mata ciliar, faz rotação de cultura, cumpre com a legislação ambiental e social. Ele se torna um educador”, complementa Pelegrin que também é agricultor.
As ações de preservação ambiental na propriedade orgânica vão além do cumprimento da legislação. Eis mais uma característica deste sistema de produção. “O equilíbrio ambiental é necessário para o agricultor orgânico, ele sabe da importância da mata ciliar”, colabora Pelegrin. Por isso, a questão ambiental é mais focalizada. Entende-se que o solo, a água, os seres vivos fazem parte do ciclo vital: a propriedade é vista como um ecossistema e o solo é um organismo vivo. “A diferenciação é muito forte, deixa de agregar processos tecnológicos convencionais, abre mão da utilização de produtos químicos e permite que a planta trabalhe seu mecanismo natural de extração de nutrientes”, reforça o biólogo do Instituto Emater, José Cosme de Lima.
Desta forma, ao invés da planta consumir uma “sopa” composta por ingredientes sintéticos, ela estabelece uma interação entre os microorganismos do solo e adquire, naturalmente, através dos sinais químicos, os nutrientes de forma mais lenta e controlada. “É um processo que respeita o tempo da planta, construindo um equilíbrio entre ela e o solo”, argumenta o biólogo.
Neste contexto, a propriedade agroecológica é uma prestadora de serviços ambientais. Os componentes avaliados para esta modalidade resguardam a localização estratégica, o perfil de formação do solo – arranjo específico para a infiltração da água, agregados físicos, químicos e biológicos. “Devemos considerar diversos elementos, como os grupos de microorganismos presentes para degradar as matérias orgânicas e permitir a fertilidade do solo. Estes aspectos são observados de modo a assegurar sua contribuição ao meio ambiente”, explica Lima.

CONVERSÃO – A opção pelo cultivo de produtos orgânicos não foi simples para a família Queiroz. O patriarca participou, primeiramente, de um curso - Cultivando Água Boa - promovido pela Itaipu Binacional, em parceira com a Prefeitura de Toledo, Instituto Emater e outras instituições que possuem projetos de preservação e incentivo à economia sustentável. A partir deste momento se iniciou a mobilização no município com a criação da Associação dos Produtores Orgânicos de Toledo em 2006. Atualmente 13 famílias integram o projeto, mas nem todos estão produzindo, pois o processo de adequação é lento.
O tempo de conversão da cultura convencional para a orgânica varia de 12 a 18 meses. De acordo com o biólogo do Emater, esse tempo é variável, pois é necessário fazer ajustes na rotina e no aprendizado de técnicas utilizadas na agricultura orgânica. Cada realidade precisa de um planejamento feito de tal forma que a conversão ocorra de fato. “O produtor orgânico é obrigado a pensar, pois uma tecnologia utilizada no vizinho pode, ou não, dar certo em sua propriedade”, alerta Pelegrin.
Após serem atendidas todas as questões normativas o produto pode ser habilitado a receber o selo orgânico de qualidade. Em Toledo atuam duas certificadoras. A Ecovida e a Associação de Certificação Instituto Biodinâmico (IBD). A diferença entre elas é apenas uma: a primeira exige a participação do agricultor em grupos de discussões, na troca de experiências e na atuação como agente fiscalizador. No município, cinco famílias estão certificadas. As demais caminham para este objetivo.
No entanto, a conversão não se encerra quando se recebe o selo. A propriedade de Queiroz, por exemplo, tem melhorado a cada dia. Ele quer chegar a 30 mil m2 de horta, pois o processo tem que ser feito em etapas, já que o solo em si demora mais de seis anos para ficar saudável.

EXEQUÍVEL – E o trabalho continua. Todo dia é um desafio. Todo dia é uma novidade. O agricultor aprende que não se age apenas com intuito de benefícios financeiros, mas é uma rede que funciona interligada, porque senão não há retorno. Queiroz, neste sentido, está satisfeito. Economicamente a agricultura orgânica é viável. Os produtos têm um valor agregado, pois o trabalho desenvolvido demanda muito mais do produtor do que na agricultura convencional. “Hoje não há problemas de mercado, existe uma grande procura e mesmo que o preço seja superior em função da oferta ainda limitada, a venda é garantida”, observa o assessor do projeto Agricultura Orgânica do Emater, Urbano Mertz.
O consumidor que a princípio torce o nariz para o preço, ao experimentar o produto muda de posição. Além de ser mais saboroso, os adeptos também pensam no sistema envolvido e como ele funciona. Lina Viezzer se alimenta de orgânicos diariamente, sabe bem o que há por trás de um simples tomate. “Eu consumo um conceito dentro de uma nova forma econômica, onde pessoas estão preocupadas com a segurança alimentar, nutricional e com o equilíbrio com o meio ambiente, porque não é só o alimento que é orgânico, quem o produz tem outra consciência da agricultura”, expõe.

VISLUMBRANDO O FUTURO – Essa preocupação de Lina é crescente nos dias atuais. É a busca pela qualidade de vida, por meio de uma alimentação saudável, livre de resíduos de agrotóxicos e com características nutricionais superiores aos convencionais. E o poder público tem se atentado para este aspecto. A Cozinha Social de Toledo – que abastece quatro Restaurantes Populares e 18 escolas municipais no perímetro urbano – recebe diariamente alimentos orgânicos de um produtor. Esse produtor é justamente o Queiroz que fornece verduras em geral à unidade.
Porém, como a quantidade não é suficiente para atender a demanda de duas mil refeições diárias, a equipe da Cozinha mescla também os alimentos convencionais. “Estamos colocando no cardápio produtos orgânicos porque eles são essenciais para a nossa saúde. Hoje, precisamos trabalhar com os dois tipos mas, à medida que mais produtores forem se certificando como orgânicos, mais alimentos saudáveis estarão na mesa dos trabalhadores e das crianças. Alimento saudável é sinônimo de qualidade de vida”, diz a nutricionista da Cozinha, Sofia Perinazzo.
A alimentação também melhorou na casa do Queiroz, mas não foi só ela. “Aqui eu tenho mais qualidade de vida. Não utilizo produtos que fazem mal ao meio ambiente, a minha família, a quem vai consumir o nosso produto. Isso é importante, porque nós estamos fazendo a nossa parte. Se algumas pessoas não acreditam nesse trabalho ou não querem fazer a parte delas, tudo bem. De grão em grão nós fazemos um grande movimento. E se você não fizer a sua parte como será o nosso futuro?”.

Angélica Maria, Camile Frizon
e Fabíola Dalla Vecchia
Da Redação
TOLEDO

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