Um dia eu quis inspirar o contista recluso.
Bem sabia eu, que nas tardes frias de Curitiba, ele andava a
vagar por ali, onde raios de sol esquentavam as penas dos ratos de asas que
dividiam espaço com os andarilhos e com os curitibanos apressados.
Eu me dava o luxo de arrumar um espaçinho num banco manchado
pelas pombas cinzas. Ficava ali - observando. Tentava imaginar como ele se
inspiraria em mim e que de alguma forma já estava eu sendo um personagem de
seus contos.
Às vezes tinha a impressão que do outro lado da praça, era
ele sentado.
No fim, quem me inspirava era o saber da sua existência.
Pois é capaz que ele nunca tenha me visto a esperá-lo.
E foram muitas tardes e manhãs que vagava por ali, vagabundeando
com o corpo franzino, rachando de frio. Escritores, artistas são, aos olhos dos
outros, vagabundos...
Deveria ser mesmo. Não ganhei um tostão naquela fase. E
acabava nos sebos, vendendo a minha biblioteca particular por uma ninharia para
poder alimentar os ossos do corpo, que a carne que havia era pura ilusão do
excesso de roupas.
Ainda sonho com ele, com seu vampiro, com suas ruas desnudas
e sua boêmia profanada. Ainda desejava vê-lo cara a cara. Mas meu eu literário
já não existe mais e, mesmo assim, alegro-me ao ouvir seu nome... Ao saber que
seu talento é mais uma vez reconhecido. Pois por mais que nunca servirei a ele,
sei que a mim, ele bem serve.
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