Há algum tempo penso nisso. Lobotomia. Que mal existe em querer apagar a memória. Como seria mais fácil se o nosso cérebro fosse exatamente como um HD. Seleciona o período (arquivo) da vida que se quer deletar e aperta aquela teclinha DELETE. Pronto. Acabou. Não há mais vestígios do período.
Claro, somos feitos das lembranças dos momentos que vivemos. Sejam bons ou ruins fazem parte do nosso amadurecimento. Mas poxa... Eu quero esquecer. Não toco mais no nome da criatura. Evito os pensamentos que surgem do nada. Sempre digo a mim mesma: isso não faz parte mais da minha vida. Não deve ocupar meu pensamento. Não me pertence mais.
Mas não. Quando estou distraída sinto um cheiro. Vejo uma reportagem. Leio um livro. O próprio tom do dia faz com que lembranças de momentos vividos há anos venham à tona. Quero uma lobotomia. Tirem isso de mim. Não suporto as lembranças... Quero esquecer esses momentos. Apagá-los do meu HD.
Simples assim. Não. Não é simples. Tudo é complicado. É difícil. Essas lembranças irão me acompanhar o resto da vida. Como uma doença incurável. E quando estiver bem velhinha. Se eu conseguir ficar bem velhinha. Vou contar histórias para alguém... Um neto por exemplo, se é que terei netos, se é que terei filhos... Enfim... vou contar história dos meus vinte e poucos anos e lá estará esse período gravado na memória... Talvez com os anos, as novas experiências, esses momentos deixem de ser tão fortes... Mas como esquecer a primeira viagem ao exterior, os passeios no nordeste brasileiro, as praias do sul, a decisão de morar em Curitiba... Ah, meu Deus... Lobotomia já... Quero esquecer tudo isso...
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